BASURAMA – O lixo não existe

Olá pessoal, escrevo hoje sobre um coletivo que nasceu na Espanha, mas faz ações muito legais aqui no Brasil e em outros países, o Basurama.

Em espanhol, basura significa lixo, e o sufixo grego –rama, “ver, olhar”, resultando na expressão “olhar o lixo”, ou seja, prestar atenção no lixo. Em entrevista, afirmam que o lixo é tudo aquilo que não queremos nem conseguimos controlar e, por isso, buscamos nos livrar. Mas o que pode acontecer se, invés disso, a gente olhar pra esse material “rebelde” e deixar ele ser tudo o que pode ser? Uma garrafa de plástico flutua, uma sacola se enche de ar, um pneu é macio e resistente, um tonel guarda, etc., etc.. São infinitos os usos afinal, o lixo não existe, eles não cansam de repetir.

O Basurama vê seu potencial na transformação de resíduo em recurso e com isso transformar radicalmente os valores de uma sociedade sustentada pelo consumo e pelo descarte. Falam que no começo buscavam materiais em caçambas de lixo nas ruas, mas foram descobrindo, pouco a pouco, outros tipos de lixo: de propagandas de TV a casas abandonadas. Todos esses excessos que inundam as cidades são materiais para construir uma outra cidade. Uma cidade para brincar, feita coletivamente e que estimule a criatividade e a interação. Abaixo, alguns exemplos das ações do coletivo.

É sabido que as mudanças são lentas, mas também acreditam que nunca houve melhor momento pra esse caminhar, afinal, os recursos são abundante e gratuitos. No site e na página  brasileira do coletivo é possível encontrar uma série de manuais de instrução para o reaproveitamento de resíduos e construção de mobiliários e brinquedos. Em outro post, trouxemos algumas dessas receitas simplificadas em uma única página.

Mãos à obra, galera!

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Manuais de Reusos para Pneus

Galeria

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E aí Oficineiros! O pneu, este material recente que deve durar cerca de 600 anos, está sobrando no mundo. E isso tem gerado problemas, como poluição visual e abrigo de animais indesejáveis, e contaminação de solos através da infiltração de … Continuar lendo

Pintura com cal

Uma casa bem pintada passa sensação de bem-estar e conforto, além de ajudar em sua conservação. Mesmo assim, nem sempre é realizada, sendo por vezes considerada supérflua, outras muito cara. Atualmente, o galão (18l) mais barato no mercado custa cerca de 70 reais, podendo chegar a mais de R$ 300,00, dependendo do ambiente ou material que vai receber a tinta, sua cor, acabamento, etc..

cal

A caiação (pintura com cal) é uma das formas mais tradicionais de pintura, e pode ser usada tanto em ambientes internos quanto externos, possuindo uma durabilidade média de três anos, quando começa a desbotar (especialmente se tiver cores fortes). Quanto menos água a superfície receber, seja de chuva ou manutenção, maior sua durabilidade. Quando molha, fica com um aspecto de manchado, mas volta ao normal depois que seca. A cal de pintura é isenta de compostos orgânicos voláteis (COVs), – substâncias tóxicas presentes nas fórmulas das tintas industrializadas, e repele vários insetos, sendo também utilizada na agricultura orgânica.

ex de casas caiada

Exemplo de casas caiadas com diferentes tonalidades

Recentemente, começou-se a adicionar cola branca em sua mistura para ampliar a resistência da tinta, porém, além desse aditivo encarecer a mistura e causar uma série de danos ambientais associados ao petróleo usado em sua composição, também impermeabiliza a superfície, perdendo uma das vantagens da caiação, que é a ação anti-mofo por deixa a parede “respirar”. Há quem adicione óleo de linhaça, alegando ser a opção mais natural para repelir água, em especial quando se pinta áreas molhadas (banheiro, cozinha, etc..). Nunca o fiz essa experiência, tanto pelo preço como pela dificuldade de achar tal óleo, mas conheço relatos de que essa mistura dá uma textura diferente a pintura. Nesse caso, se quiserem experimentar, recomento passar primeiro em uma pequena área e esperar secar para decidir. Também acho que o óleo, assim como a cola, não deixa a parede “respirar”, então tem que pesar o que é mais importante na pintura.

No mercado existem várias opções de marcas, mas, no geral, um saco de 8kg sai por volta de 5 reais. O rendimento depende da superfície, da cor desejada e da diluição, mas um saco cobre cerca de 20m2 a 30m2 com duas demãos de tinta. Assim como todas pinturas, é importante limpar bem a superfície antes de aplicar a tinta, e se ela já tiver recebido uma pintura antes, lixar a parede até tirar todo ou quase todo resquício da demão anterior. Além disso, não é indicado usar massa corrida para fechar buracos ou rachaduras, mas sim argamassa de piso interno.  Nesse caso é necessário aumentar um pouco a rachadura, pois ela não “entra” na fissura como a massa corrida. Se bem que, pessoalmente, gosto muito das texturas naturais da parede, então uma opção é colocar esses detalhes também na pintura. Outro ponto é lembrar de umedecer a parede antes da pintura em dias muito quentes, para assim facilitar a aplicação e aumentar o rendimento.

A mistura é bem intuitiva, no final é quem pinta que vai escolher a consistência da tinta, mas sugiro começarem pela medida 4kg de cal para pintura para 8 litro de água e 1 xícara de sal (ajuda na fixação da tinta). Essa mistura é o que chama de “leite de cal”. É importante homogeneizar (misturar) o leite de cal ao longo da aplicação, pois ele pode sedimentar. Geralmente, quem usa pele primeira vez fica com a impressão de que não vai dar certo, já que antes de secar ele fica bem aguado e a cor pouco visível, mas alguns minutos após a aplicação já é possível ver a coloração surgindo. Entre cada demão deve-se aguardar o tempo de secagem, que varia entre 20 e 60 minutos, dependendo do substrato e das condições ambientes. O tempo de secagem final é de cerca de 48 horas, sendo importante evitar que a superfície entre em contanto com água durante esse tempo. A cal pode ser encontrada em diferentes colorações, mas costumo comprar a branca e adicionar óxido ferroso (mais conhecido como pigmento Xadrez) nela, alcançando incontáveis tonalidades por suas misturas. Noto que nessa mistura (óxido ferroso + leite de cal), a tinta às vezes engrossa bastante, não sei o porquê (galera da química, me ajudem!), mas apenas adiciono mais água e sigo pintando.

As imagens aí de cima mostram um pouco de uma atividade que fizemos em Central Carapina, Serra/ES. Os moradores desejavam pintar o meio fio da rua e conseguimos um verdadeiro exercito de crianças para nos ajudar. Não usamos nem 4kg de cal e a rua ficou toda colorida. Também foi nesse dia em que aprendemos a usar o sal na mistura. Como a área pintada fica muito sujeita a pisoteio, umidade e a impregnação com terra e barro, já está bem danificada, mas chegando na rua ainda da pra notar as cores e a “boniteza” que ficou.

Já vi gente falando que dá até pra pintar madeira com ela, desde que não seja madeira tratada. Não sei e admito que tenho certa desconfiança, mas seja como for, logo teremos a oportunidade de testar e aí atualizar a postagem.

Se quiserem mais informações, indico o site caiar-te!, mantido por Sofia Trincão e uma verdadeira ode a pintura com cal em suas mais diversas formas e aplicações.

 

Lixeira com Balde de Margarina

Bom dia oficineiros! Já pensaram em fazer uma lixeira resistente pra sua rua, gastando menos que 15 reais? Nós do Oficina de Lixo elaboramos um modelo de baixo custo, e fizemos um vídeo-tutorial ensinando. Ideal para espaços públicos, para festivais, feiras e outros eventos abertos.

Material necessário:

  • 1 Balde de Margarina vazio (15kg, dica: disponível em padarias)
  • 1 Dobradiça ou outra peça metálica plana com no mínimo dois buracos em cima e um embaixo.
  • 1 Parafuso com uma porca que entre na peça metálica
  • 1 Arruela de Aba Larga
  • Arame e alicate

A placa pode ser feita com tábuas de madeira de caixa de feira, utilizando o canetão.

Bom proveito!

 

 

Microplástico, greenwashing e outras plasticidades.

E aí pessoal, boa tarde. Está na hora de falarmos um pouco sobre o microplástico, que é o plástico que se degrada na água e se dispersa através de micropartículas, gerando prejuízos muito mais devastadores para a vida marinha e as que dependem dela (como nós humanos) do que os resíduos plásticos visíveis.

Se você ainda não sabe bem do que estou falando, sugiro assistir esse ótimo vídeo produzido pelo Minuto da Terra.

Como é apresentado no vídeo, os mesmos benefícios buscados no plástico que o tornam um item perfeito para consumo (seu baixo custo monetário e sua durabilidade) são causadores dos principais problemas relativos à vida nos oceanos do planeta. O que poucos sabem é que os problemas dos grandes pedaços de plástico, como engasgamentos e estrangulamentos de baleias, tartarugas, peixes e aves, mal se comparam ao que ocorre quando a luz solar , o vento e as ondas, fragmentam esse material plástico, transformando-o em pequenas partículas que não podem ser absorvidas por microorganismos. Ao invés de desaparecer, portanto, se espalham pelos oceanos, do Ártico até a Antártica.

Diferente dos plásticos grandes, os efeitos destes pequenos plasticos ainda estão pra ser melhor conhecidos, como o efeito de atração de substâncias tóxicas que essas micropartículas plásticas têm, afetando drasticamente a vida de diversos seres que, mesmo sem perceber, o absorvem, seja inalando pela respiração dos peixes, até a ingestão dessa água contaminada.

Como forma imediata de redução de danos, é apontada a diminuição do consumo de plástico e sua substituição por materiais plásticos biodegradáveis, assim como a diminuição na emissão de lixo nos corpos hídricos e sua gradual recuperação. Para essa segunda alternativa, é necessária a adequada distribuição de lixeiras, associada à coleta de resíduos que permita sua reciclagem; assim como a existência de aterros sanitarios que possam dar aos resíduos um tratamento seguro.

Já para o caso de evitarmos o uso de materiais plásticos, o caminho a ser percorrido parece longo, à medida que somos cada vez mais bombardeados de utensílios plásticos. Muitos desses, como as sacolas e outros itens descartáveis, só nos são úteis por poucos minutos, prometendo gerar, durante séculos, impactos sobre os ecossistemas naturais e sociais. A conscientização dos malefícios se faz urgente, tanto para as comunidades que recebem o lixo plástico, muitas vezes carregado pelas correntes marinhas e vento, como para os grupos de pescadores e seus clientes que dependem da saúde marinha para sua sobrevivência. Há toda uma rede humano ambiental sendo colocada em risco por uma aparente falha de concepção.

A pergunta que não cala é: é possível aproveitar todos os benefícios do material plástico sem com isso gerar um cenário catastrófico global? A resposta pode estar nos plásticos biodegradáveis, materiais biotecnológicos, feitos a partir do amido de batata, da mandioca, e até da banana. Existem pessoas pesquisando a possibilidade de criar embalagens, pratos e copos descartáveis feitos desse material que preserva sua maleabilidade e durabilidade, mas que pode ser decomposto e absorvido por minhocas e microorganismos, desenvolvendo o solo, gerando riqueza ao invés de destruição. A tecnologia biodegradável é um campo que tem muito a se desenvolver nos próximos anos, e certamente merece ser mais reconhecido pelas pessoas.

Só não podemos confundir o plástico biodegradável com o plástico Oxi-biodegradável. A tecnologia Oxi-degradável consiste em produzir sacolas de polietileno comum junto a um aditivo que faz com que, em situações de oxigenação, umidade e calor específico, esta se degrade em um período de dois anos. Do ponto de vista técnico, o que ocorre é uma fragmentação da sacola plástica.Mas o plástico continua sendo plástico, apenas dividido em pequenas partículas¹. Dessa forma, pessoas como o gerente da empresa de pesquisa em resíduos TriCiclos, Gonzalo Muñoz, criticam o uso indiscriminado do termo Oxi-biodegradável, uma vez que não é bem isto o que ocorre; está mais para um plástico Oxi-fragmentável, que apenas invibiliza as complexas móleculas de polietileno. Todo esse caso poderia gerar uma discussão sobre Greenwashing, que é a prática de técnica de marketing para “maquiar” produtos e tentar passar a ideia de que são ecoeficientes, sustentáveis, etc. Mas aí já é pano pra outra postagem, e por ora já chega de tanta plasticidade.

Texto por Gabriel Jardim

Vídeo por Minuto da Terra

Referências:

¹MUÑOZ, G. segundo América Retail, 2013, in GUAJARDO, Macarena., LLOPIS, R.S..MANUAL COMPLEMENTARIO CURSO ONLINE CÓMO VIVIR BASURA CERO, Clase 10. Fundación Basura

²CHEN, Y.S.., & CHANG, C. H. Greenwash and green trust: The mediation effects of green consumer confusion and green perceived risk. Journal of Business Ethics. 2013, in Greenwashing. In: JARDIM, Gabriel L.. Ecologias Urbanas: perspectivas ecossistêmicas nas cidades. UFES. Vitória 2017. Disponível em < https://ecologiasurbanas.wordpress.com/ecologias/ >

 

Brinquedos com rolos de papel higiênico

Galeria

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Olá oficineiros! Já pensaram em como os pequenos objetos cotidianos do nosso dia-a-dia, aqueles esquecidos que nasceram para virar lixo, podem se tornar pequenos objetos de arte? Pensando nessa perspectiva, que trouxemos o rolo de papel higiênico como ferramenta em … Continuar lendo